Certa vez, assistindo um
documentário que falava sobre a vida dos monges, uma frase me chamou a atenção.
Um monge contava que muitos não compreendiam a escolha feita por eles e, alguns
até diziam: “mas vocês servem pra que, se ficam aí fechados cantando, rezando o
dia todo?” E para minha surpresa o monge respondeu: “Fico feliz quando dizem
que não servimos para nada. De fato, não servimos para nada, nós servimos a
Deus!”
Mas eu ouso ir além, digo que
justamente este “não servir para nada” é que torna os consagrados tão
necessários para o mundo nos dias de hoje. Já dizia nosso querido São João
Paulo II que “as pessoas consagradas, na medida em que aprofundam a sua própria
amizade com Deus, ficam em condições de ajudar os irmãos e irmãs com válidas
iniciativas espirituais, como escolas de oração, retiros e exercícios
espirituais, jornadas de deserto, escuta e direção espiritual”(Vita Consecrata n. 39).
Somos todos
filhos de nosso tempo e corremos o risco, inclusive nós religiosos, de entrar
na lógica desta cultura utilitarista e tecnocrática, que nos leva a avaliar as
coisas, a vida e as próprias pessoas em base à funcionalidade. Nesta dinâmica
entra a crise da vida consagrada, a crise de identidade do religioso. Porque
ele poderia “ser mais útil” num trabalho social, numa escola, num hospital.
Muitas congregações e institutos
de vida consagrada também realizam estes tipos de serviços, de acordo com seus
próprios carismas. Mas uma coisa que todos tem em comum e que é o essencial é o
desejo de estar com o Senhor, o cultivo desta amizade por meio de momentos de
solidão e de espiritualidade. É a partir desta intimidade com o Amado que elas
se tornam mais capazes de amar os irmãos e ampara-los nas suas carências, que
vão desde limpar feridas físicas que até as feridas mais profundas da alma.
A vida
consagrada não é um desperdício, mas um sinal de gratuidade e de amor que
transbordam. Lembremos da cena evangélica da mulher que despejou aos pés de
Jesus um vaso de perfume que perfumou toda a casa. E de como Judas indignou-se
pelo “desperdício”. A vida de quem se consagra é como este vaso de perfume que
é despejado diante de Deus numa generosidade sem limites que foge da lógica do
útil e do prático mas, que enche de sentido a existência e ajuda a quem perdeu.
“Se trata do perfume do louvor, que sobe
a Deus como confissão do seu Amor, e se difunde entre os homens como um convite
a derramar-se numa verdadeira perda diante Dele” (Gabriele Ferlisi, Gli Agostiniani Scalzi, Costituzioni e
carisma).
Frei Leandro Xavier Rodrigues, OAD
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