segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vida religiosa: desperdício ou gratuidade?



Numa sociedade utilitarista em que cada um é medido em base ao que é capaz de produzir e fazer lucrar nos deparamos com algumas pessoas que parecem nadar contra a correnteza. São as pessoas consagradas, os religiosos, que vivem segundo uma lógica bem diferente, que por vezes nos incomoda, pois “não produzem” para o mercado.
Certa vez, assistindo um documentário que falava sobre a vida dos monges, uma frase me chamou a atenção. Um monge contava que muitos não compreendiam a escolha feita por eles e, alguns até diziam: “mas vocês servem pra que, se ficam aí fechados cantando, rezando o dia todo?” E para minha surpresa o monge respondeu: “Fico feliz quando dizem que não servimos para nada. De fato, não servimos para nada, nós servimos a Deus!”
Mas eu ouso ir além, digo que justamente este “não servir para nada” é que torna os consagrados tão necessários para o mundo nos dias de hoje. Já dizia nosso querido São João Paulo II que “as pessoas consagradas, na medida em que aprofundam a sua própria amizade com Deus, ficam em condições de ajudar os irmãos e irmãs com válidas iniciativas espirituais, como escolas de oração, retiros e exercícios espirituais, jornadas de deserto, escuta e direção espiritual”(Vita Consecrata n. 39).
            Somos todos filhos de nosso tempo e corremos o risco, inclusive nós religiosos, de entrar na lógica desta cultura utilitarista e tecnocrática, que nos leva a avaliar as coisas, a vida e as próprias pessoas em base à funcionalidade. Nesta dinâmica entra a crise da vida consagrada, a crise de identidade do religioso. Porque ele poderia “ser mais útil” num trabalho social, numa escola, num hospital.
Muitas congregações e institutos de vida consagrada também realizam estes tipos de serviços, de acordo com seus próprios carismas. Mas uma coisa que todos tem em comum e que é o essencial é o desejo de estar com o Senhor, o cultivo desta amizade por meio de momentos de solidão e de espiritualidade. É a partir desta intimidade com o Amado que elas se tornam mais capazes de amar os irmãos e ampara-los nas suas carências, que vão desde limpar feridas físicas que até as feridas mais profundas da alma.
            A vida consagrada não é um desperdício, mas um sinal de gratuidade e de amor que transbordam. Lembremos da cena evangélica da mulher que despejou aos pés de Jesus um vaso de perfume que perfumou toda a casa. E de como Judas indignou-se pelo “desperdício”. A vida de quem se consagra é como este vaso de perfume que é despejado diante de Deus numa generosidade sem limites que foge da lógica do útil e do prático mas, que enche de sentido a existência e ajuda a quem perdeu. “Se trata do perfume do louvor, que sobe a Deus como confissão do seu Amor, e se difunde entre os homens como um convite a derramar-se numa verdadeira perda diante Dele” (Gabriele Ferlisi, Gli Agostiniani Scalzi, Costituzioni e carisma).
Frei Leandro Xavier Rodrigues, OAD

Nenhum comentário:

Postar um comentário